sábado, 3 de março de 2007

Estranhas relações na polícia


Há uma semana, no domingo, o Globo publicou na página 3 reportagem sobre recrutamento de brasileiros para trabalho de "mercenário" no exterior, sobretudo no Iraque, em que cita o italiano Giovanni Spinelli. O caso de Spinelli vai muito além do simples recrutamento de brasileiros. Começou a ser revelado pela revista Carta Capital, foi suitado pelo jornal O Dia e depois foi esquecido.
Spinelli trabalhou no Iraque até 2004 para empresas do tipo "private military companies", que recrutam seguranças e soldados para atuar em áreas de conflito. Recrutou três italianos, um dos quais, Fabrizio Quattrocchi, foi decapitado por rebeldes iraquianos diante de uma câmera de TV. Ao regressar à Itália, foi condenado, porque as leis do país proíbem que se recrute cidadãos para servir a um país estrangeiro (no caso, os EUA). Veio para o Brasil no ano seguinte, onde ministrou cursos anti-terrorismo à polícia do Rio. No entanto, ele havia sido preso com armamento de uso das Forças Armadas por policiais civis que investigavam denúncia de "gato" no escritório da empresa que abriria no país, a First Line, em sociedade com dois outros italianos, na rua do Ouvidor, Centro do Rio. Mesmo assim, foi contratado para ministrar cursos, preparando a polícia para fazer a segurança do Pan 2007. Ainda em 2005, treinou 30 militares da reserva no campo de Gericinó, de propriedade do Exército, utilizando armamento da instituição, segundo afirmou a jornalista Cláudia Morais, atualmente editora do jornal O Povo do Rio e ex-assessora de imprensa da First Line. Ela participou dos treinamentos e alegou que tinha a esperança de realizar o sonho de cobrir uma guerra. Segundo Cláudia, ela cobriria a atuação da empresa para uma revista européia especializada. A jornalista afirma que a autorização para uso das instalações e equipamentos militares foi dada pelo comandante da unidade, tenente-coronel Roberto Criscuoli, que está sendo investigado em Inquérito Policial Militar (IPM). Além dele, um general também está na berlinda. Ele chegou a assistir a alguns treinamentos, onde Spinelli oferecia cerca de R$ 6,4mil para cada soldado recrutado.
A cobertura dos jornais parou por aí. O Dia ainda divulgou que, durante o treinamento dado às forças policiais do Rio, Spinelli danificou pelo menos duas viaturas e seis fuzis.
No entanto, documentos referentes a investigações conduzidas pelo próprio Exército mostram que o italiano declarou endereço falso nos registros referentes à First Line. Embora a empresa funcionasse na rua do Ouvidor, o endereço registrado no dia 15 de fevereiro de 2005, no cartório Rodolpho Quaresma (3º ofício de notas), em Japeri, foi Avenida Leni Ferreira 230, Centro de Japeri, era avenida Leni Ferreira 230, Centro, Japeri. Lá, funciona uma loja de bicicletas sem nome. A contadora da First Line, a quem interessar possa, era Sônia C. de Assis de Souza. A empresa foi registrada na Junta Comercial do Rio (Jucerja) sob o número 33.2.0757553-1. O capital social declarado era de R$ 300 mil, sendo R$ 198 mil de Spinelli, R$ 99 mil de seu sócio, também italiano, Cristiano Meli e R$ 3 mil de um sócio brasileiro, provavelmente um laranja, chamado Sergio Correa da Silva, que declarou endereço falso - o de uma prima, moradora da rua MInistro Pinto da Luz 1008, fundos, em Lucas. Ela disse aos investigadores que o primo havia se mudado para Jacarepaguá há cerca de 10 anos.
Outro problema foi o mal-estar provocado pela contratação de Spinelli para ministrar cursos anti-terrorismo. O então delegado titular da Core, Marcos Reimão, ficou "mordido" por acreditar que a atribuição seria da Core, e questionou a contratação. Reimão levantou dados, inclusive relativos à investigação conduzida pelo Exército, preparou relatório sobre o italiano e o enviou ao então chefe de Polícia Civil, Ricardo Hallak. O mesmo afirma ter "lavado as mãos" e encaminhado o ofício ao então secretário de segurança, Roberto Precioso, que acabou decidindo pela contratação do ragazzo, mesmo sabendo de sua condenação pela Justiça italiana, sua prisão pela polícia brasileira e da investigação do Exército. O coordenador do curso foi Rodrigo Oliveira, atual comandante da Core e ex-delegado da 16ªDP (Barra da Tijuca), que não fala do assunto.

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